quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Coisas que crianças sabem
Os carros estavam cobertos de neve, como nos filmes americanos que eu assistia. O frio que ardia no rosto era tão intenso, que as lágrimas desciam como se me obrigassem a chorar, pedindo pra voltar pra casa. À uma pessoa normal, nada poderia ser mais atraente do que um bom café-com-leite e a sensação quente de pesados cobertores sobre os ombros. Mas esse dia era diferente. Era inverno, sem dúvida; eu estava lá. Não era artificial como eu via nos parques de diversões, não era redondinha, feito uma bolinha de papel. A neve parecia uma flor bem pequenininha. Quando tocava na palma da minha mão, derretia-se em um tempo muito rápido. Eu não sabia contar os segundos, só sabia que era rápido. Eu vi a fumaça saindo da minha boca enquanto ria, o taxista xingando o carro que não dava partida e as árvores despidas, quase pedindo meu casaco emprestado... e pensei que aconteceria de novo: estaria acordando. Mas não acordei, não era um sonho. A florzinha branca se derreteu bem rápido na minha luva, como os flocos anteriores. A nevasca diminui, o motorista se acalma, as árvores pararam de uivar, e meus dentes de bater... percebi que a vida era muito mais do que fazer dever de casa e brincar na escola: a vida era mágica. Mas esquecer da magia pode ser pior que acordar de um sonho. Eu não sabia disso, quando tinha 5 anos. Minha mãe me puxou para dentro de casa, disse que o frio faz mal. Naquele tempo, se esconder do mundo debaixo de cobertas funcionava. Hoje eu sei disso.
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